Por que o papa Pio XII se manteve calado diante de Hitler?


 

A polêmica envolvendo Pacelli, Franz von Papen e o nazismo


Por que Pio XII foi acusado de silêncio diante de Hitler? Conheça a relação entre Eugenio Pacelli, Franz von Papen, o Vaticano e o regime nazista.


A relação entre o Vaticano, o regime nazista e o papa Pio XII continua sendo um dos capítulos mais controversos da história do século XX. Entre os assuntos que provocam mais debates está uma pergunta difícil: por que Eugenio Pacelli teria mantido silêncio diante das perseguições promovidas por Adolf Hitler?

A questão ganha ainda mais interesse quando examinamos o livro Franz von Papen: His Life and Times, escrito por H. W. Blood-Ryan e publicado em 1939. A obra apresenta uma interpretação extremamente crítica sobre Franz von Papen e sua ligação com a ascensão de Hitler, além de atribuir a Pacelli motivações políticas e religiosas para sua postura diante do nazismo.

O livro foi publicado pela Rich & Cowan, em Londres, em 1939, com 319 páginas, e registros bibliográficos confirmam sua existência e data de publicação.

Mas existe um detalhe histórico fundamental: Pacelli ainda não era papa quando assinou o acordo com o governo alemão em 1933. Naquele momento, era cardeal e secretário de Estado do papa Pio XI. O papa Pio XII só seria eleito em março de 1939.

Quem foi Eugenio Pacelli?

Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli nasceu em Roma, em 1876. Sua carreira dentro da Igreja Católica foi marcada pela diplomacia.

Pacelli teve uma participação importante nas relações entre a Santa Sé e a Alemanha durante o período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Em 1930, tornou-se secretário de Estado do Vaticano, posição que o colocou no centro das relações diplomáticas da Igreja.

Quando Adolf Hitler chegou ao poder em janeiro de 1933, a Alemanha entrou rapidamente em processo de transformação em uma ditadura.

Nesse contexto, surgiu a negociação do Reichskonkordat, o acordo entre a Santa Sé e o Reich alemão.

E aqui aparece Franz von Papen.

Franz von Papen e a chegada de Hitler ao poder

Franz von Papen era um político conservador, católico e membro da aristocracia alemã. Inicialmente, ele não imaginava que Hitler seria capaz de controlar completamente o Estado alemão.

A história, porém, tomou outro caminho.

O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos registra que Papen desempenhou um papel decisivo nas articulações políticas que ajudaram Hitler a chegar à chancelaria.

No final de 1932 e início de 1933, Papen trabalhou nos bastidores para convencer o presidente Paul von Hindenburg a nomear Hitler chanceler. Hindenburg acabou fazendo isso em 30 de janeiro de 1933.

Papen tornou-se vice-chanceler no primeiro governo de Hitler.

A ideia de muitos conservadores era que Hitler poderia ser controlado por políticos tradicionais. Foi um erro catastrófico.

Hitler rapidamente desmontou as instituições democráticas e transformou a Alemanha em uma ditadura.

O que foi o Reichskonkordat?

Poucos meses depois da chegada de Hitler ao poder, começaram as negociações para um acordo entre a Alemanha e a Santa Sé.

O resultado foi o Reichskonkordat, assinado em 20 de julho de 1933.

O documento oficial mostra que o papa Pio XI nomeou o cardeal Eugenio Pacelli como seu representante para negociar o acordo. Do lado alemão, Hitler designou o vice-chanceler Franz von Papen.

Portanto, é historicamente correto afirmar que Pacelli e von Papen estiveram diretamente envolvidos na negociação do acordo.

Mas seria incorreto dizer que Pio XII, já como papa, assinou o Reichskonkordat com Hitler.

Ele ainda não era papa.

O acordo foi celebrado durante o pontificado de Pio XI, enquanto Pacelli era secretário de Estado.

O documento garantia, entre outras coisas, liberdade para o exercício público da religião católica e reconhecia determinados direitos institucionais da Igreja.

Entretanto, o acordo também teve consequências políticas importantes.

O Partido do Centro Católico, uma força política relevante na Alemanha, acabou desaparecendo em 1933. Para Hitler, estabelecer um acordo com a Santa Sé ajudava a conferir legitimidade internacional ao novo regime.

Por isso, historiadores e estudiosos passaram a discutir se o Reichskonkordat acabou beneficiando politicamente Hitler.

O que H. W. Blood-Ryan escreveu?

É aqui que a história fica particularmente interessante.

Em Franz von Papen: His Life and Times, H. W. Blood-Ryan apresentou uma interpretação bastante crítica da atuação de Papen e de Pacelli.

Décadas depois, publicações das Testemunhas de Jeová reproduziram a interpretação de Blood-Ryan e utilizaram suas palavras para questionar o silêncio de Pacelli diante das atrocidades nazistas.

Segundo essa narrativa, Blood-Ryan relacionava o silêncio de Pacelli aos planos políticos associados a von Papen e à expectativa de fortalecimento da Igreja Católica e da influência do Vaticano.

Uma publicação da Biblioteca Online da Torre de Vigia cita diretamente a obra de 1939 e apresenta a acusação de que Pacelli teria permanecido em silêncio porque via nos planos políticos de von Papen uma possibilidade de fortalecimento da Igreja e de recuperação de influência temporal do Vaticano.

Essa interpretação é importante como documento histórico sobre as críticas existentes na época, mas precisa ser apresentada com cuidado.

Ela não deve ser transformada automaticamente em prova de que Pacelli conscientemente apoiou todos os crimes que posteriormente seriam cometidos pelo regime nazista.

O silêncio de Pio XII

Pio XII foi eleito em 2 de março de 1939, poucos meses antes do início da Segunda Guerra Mundial.

A partir daí, a questão do silêncio papal ganhou uma dimensão ainda maior.

O regime nazista iniciou uma política de perseguição cada vez mais radical contra os judeus, culminando no Holocausto.

A grande pergunta que atravessou décadas foi:

Por que o papa não denunciou Hitler de maneira pública e direta?

Os críticos de Pio XII argumentam que ele possuía uma enorme autoridade moral e que uma condenação pública poderia ter representado uma posição clara contra a perseguição aos judeus.

Também afirmam que o Vaticano recebeu informações sobre as deportações e assassinatos.

Uma fonte da Jewish Virtual Library resume a controvérsia afirmando que, durante grande parte da guerra, Pio XII manteve uma postura pública considerada por seus críticos como excessivamente silenciosa diante das atrocidades alemãs. Ao mesmo tempo, a mesma fonte reconhece que houve ações privadas e esforços de proteção de judeus.

Portanto, não existe uma resposta histórica simples.

Os judeus e o Holocausto

É importante deixar uma coisa absolutamente clara.

O Holocausto foi um projeto de perseguição e extermínio conduzido pelo regime nazista e seus colaboradores.

Milhões de judeus foram assassinados.

A política nazista passou por diferentes etapas, começando com discriminação, exclusão social e econômica, passando por deportações e guetos e chegando ao assassinato sistemático em massa.

A discussão sobre Pio XII não diminui em absolutamente nada a responsabilidade do regime nazista pelos crimes cometidos.

A questão histórica é outra: qual foi a responsabilidade moral, diplomática e política do Vaticano diante desses crimes?

Essa pergunta continua sendo objeto de pesquisa.

E as Testemunhas de Jeová?

Outro grupo religioso perseguido pelos nazistas foram as Testemunhas de Jeová.

A perseguição contra elas ocorreu por razões diferentes da perseguição racial contra os judeus.

O regime nazista exigia lealdade absoluta ao Estado e a Hitler. Muitos membros das Testemunhas de Jeová recusavam-se a fazer a saudação nazista, prestar juramento de lealdade a Hitler ou servir nas forças armadas por razões de consciência religiosa.

O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos registra que as organizações das Testemunhas de Jeová foram proibidas na Alemanha em 1935 e que seus membros sofreram prisões, torturas, encarceramento em campos de concentração e execuções.

Os prisioneiros Testemunhas de Jeová eram identificados nos campos pelo triângulo roxo.

Estima-se que aproximadamente 1.700 Testemunhas de Jeová tenham sido mortas durante a era nazista.

Isso mostra que a repressão nazista atingiu diversos grupos, embora por motivos diferentes.

Uma diferença que não pode ser ignorada

Judeus e Testemunhas de Jeová foram perseguidos pelo nazismo, mas as bases ideológicas dessas perseguições não eram iguais.

Os judeus foram alvo de uma política racial e genocida baseada na ideologia antissemita nazista.

As Testemunhas de Jeová foram perseguidas principalmente por sua recusa em obedecer às exigências políticas e militares do Estado nazista.

Essa diferença é importante para compreender a história com precisão.

Pio XII realmente “fez uma negociação com Hitler”?

A afirmação precisa ser ajustada.

O acordo de 1933 foi negociado entre a Santa Sé e o governo alemão. Pacelli negociou e assinou pelo Vaticano, enquanto Franz von Papen assinou pelo governo alemão.

Hitler não assinou pessoalmente o documento.

Além disso, Pacelli era secretário de Estado do papa Pio XI naquele momento.

O próprio texto do Reichskonkordat identifica Pio XI como a autoridade que nomeou Pacelli como plenipotenciário e o presidente alemão como a autoridade que nomeou von Papen.

Essa correção é essencial para evitar um erro comum em textos sobre o assunto.

Então por que Pacelli negociou o acordo?

Existem várias interpretações.

Uma delas afirma que o Vaticano buscava proteger a Igreja Católica, seus sacerdotes, instituições, escolas e organizações diante de um Estado cada vez mais autoritário.

Outra interpretação argumenta que o acordo concedeu ao regime de Hitler uma importante vitória diplomática e ajudou a enfraquecer a atuação política organizada dos católicos.

Também existe uma interpretação mais crítica, semelhante à apresentada por Blood-Ryan, segundo a quais setores da Igreja teriam enxergado no conservadorismo autoritário uma barreira contra o comunismo e uma oportunidade de recuperar influência.

Essas interpretações não são necessariamente equivalentes.

É justamente por isso que o tema continua provocando debates entre historiadores.

O que sabemos hoje sobre Pio XII?

O acesso aos arquivos do pontificado de Pio XII aumentou significativamente a possibilidade de pesquisa histórica.

O Vaticano abriu os arquivos referentes ao pontificado de Pio XII em 2020, permitindo que pesquisadores consultassem milhares de documentos anteriormente inacessíveis.

Pesquisadores ligados ao Vaticano defendem que esses documentos mostram uma atuação muito mais ativa de Pio XII na tentativa de ajudar judeus do que a imagem tradicional do “papa silencioso” sugere.

Há registros de intervenções diplomáticas, ajuda a perseguidos e utilização de instituições religiosas para esconder pessoas.

Isso não encerra a controvérsia.

Mesmo pesquisadores que defendem Pio XII reconhecem que permanece a discussão sobre o seu silêncio público.

E essa é provavelmente a parte mais difícil do debate.

O problema do silêncio

Imagine uma situação em que milhões de pessoas estão sendo perseguidas e assassinadas.

Uma instituição religiosa possui milhões de fiéis, diplomatas, contatos internacionais e uma autoridade moral enorme.

A pergunta inevitável é:

Até que ponto essa instituição deveria falar publicamente, mesmo que isso colocasse seus próprios membros em perigo?

É exatamente nesse ponto que a figura de Pio XII se tornou tão controversa.

Seus defensores argumentam que uma condenação pública poderia provocar represálias e prejudicar operações clandestinas de salvamento.

Seus críticos respondem que o silêncio público poderia ser interpretado como acomodação ou falta de coragem moral.

As duas posições fazem parte da historiografia sobre o assunto.

E onde entra Blood-Ryan nessa história?

A obra de H. W. Blood-Ryan é particularmente interessante porque foi publicada em 1939, antes que o mundo conhecesse toda a dimensão do Holocausto.

Isso significa que o livro não pode ser utilizado como se tivesse sido escrito depois de Auschwitz, quando os crimes nazistas já eram amplamente conhecidos em sua dimensão total.

Ao mesmo tempo, sua importância histórica permanece.

Blood-Ryan registrou uma crítica contemporânea às relações entre Franz von Papen, Hitler, o Vaticano e Pacelli.

A obra permite observar como determinadas relações políticas eram interpretadas antes e durante o início da Segunda Guerra Mundial.

É justamente por isso que o livro deve ser lido como uma fonte primária de sua época, e não como a palavra final sobre o comportamento de Pio XII.

Uma conclusão que exige cautela

A história de Pio XII, Hitler e Franz von Papen não pode ser reduzida a uma frase como “o papa ajudou Hitler” ou “o papa não fez nada”.

A realidade histórica é muito mais complexa.

Franz von Papen realmente participou das articulações que ajudaram Hitler a chegar ao poder. O Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos confirma seu papel nessas negociações políticas.

Pacelli realmente negociou e assinou o Reichskonkordat em nome da Santa Sé em 1933.

Mas ele ainda não era Pio XII.

Pio XII tornou-se papa em 1939 e enfrentou posteriormente uma das maiores tragédias da história humana.

Ele foi criticado por seu silêncio público, mas também existem documentos indicando esforços diplomáticos e ações de proteção de judeus.

Ao mesmo tempo, os crimes cometidos contra judeus e Testemunhas de Jeová são fatos históricos amplamente documentados.

O grande mistério histórico não é saber se o nazismo cometeu massacres. Sabemos que cometeu.

A verdadeira questão é entender por que líderes políticos e religiosos tomaram determinadas decisões quando o terror começou a se espalhar pela Europa.

E é nesse ponto que o livro de H. W. Blood-Ryan se torna uma peça interessante do quebra-cabeça.

Publicado em 1939, Franz von Papen: His Life and Times oferece uma visão contemporânea e profundamente crítica sobre as relações entre Papen, Hitler e Pacelli.

Mais de oito décadas depois, novas pesquisas documentais permitem comparar essas acusações com outras evidências.

Essa comparação é fundamental.

Porque estudar a história não significa simplesmente escolher um lado.

Significa examinar documentos, contexto, testemunhos e consequências e, principalmente, distinguir aquilo que é comprovado daquilo que é interpretação.



Fontes para aprofundamento: Museu Memorial do Holocausto dos Estados Unidos (USHMM) – A ascensão de Hitler ao poder

Fontes para aprofundamento: USHMM – Perseguição às Testemunhas de Jeová

Fontes para aprofundamento:Reichskonkordat de 1933



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que realmente aconteceria se um astronauta caísse em um buraco negro?

A Grécia na História Bíblica: Com o Império de Alexandre, o Grande.

Terapia CAR-T no SUS: o avanço revolucionário no tratamento do câncer anunciado pelo Ministério da Saúde